sábado, 27 de setembro de 2014

VIGÉSIMO SEXTO DOMINGO DO TEMPO COMUM


COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS
DIA DA BÍBLIA

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
“Recordai, Senhor meu Deus, vossa ternura
e a vossa compaixão, que são eternas!
Não recordeis os meus pecados quando jovem
nem vos lembreis de minhas faltas e delitos!
De mim lembrai-vos, porque sois misericórdia
e sois sem limites, Senhor!” (Cf. Sl 24).

            A Palavra de Deus, proclamada, acolhida e celebrada no Dia da Bíblia, no Vigésimo-Sexto Domingo do Tempo Comum “nos convida a reconhecer que não basta só falar, o nosso agir é que demonstra se cumprimos ou não a vontade do Pai. Neste Dia da Bíblia, lembramos que ela ilumina nossa vida e aponta o caminho do Reino de Deus.
          A Palavra de Deus nos fala da responsabilidade que temos sobre nossos atos e suas consequências e salienta a importância da coerência entre o falar e o agir.
          Não podemos culpar Deus pelos nossos erros. Não basta apenas dizer sim (formalismo); é preciso trilhar o caminho da justiça. Imitar a Cristo na humildade e no desprendimento.
          A Eucaristia é a ação pela qual nos identificamos com a morte e ressurreição de Cristo, dispondo-nos a ir com ele até a cruz para que os outros vivam”  (cf. Liturgia Diária de Setembro de 2014 da Paulus, pp. 80-82).
          Somos daqueles que pensam que basta dizer: “Senhor, Senhor” para entrar no reino de Deus? Daqueles que se acomodam com formalidades e com títulos religiosos e não se esforçam na prática da justiça? Seguir Jesus repercute em nossa prática. É ela que decide o destino diante de Deus. O fazer comprova ou desmente o dizer. A pergunta de Jesus exige discernimento: qual fez a vontade de Deus?
          A intenção de Jesus não é convencer seus adversários, mas dizer-se porque são rejeitados. Ouvimos, neste contexto, uma das frases mais duras de Jesus: “Os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus”. Aqueles que pretendem ser perfeitos, bons observadores da lei serão antecipados no Reino por aqueles que eles julgam e condenam como os maiores violadores da lei, os pecadores públicos. Pecadores públicos de nossos dias, são aqueles homens e mulheres públicos que escandalizam a Nação que representam, traindo a confiança de seus eleitores, legislando leis em benefício próprio, desviando verbas públicas destinadas à Saúde, Educação, Moradia, etc aos próprios bolsos. Somos também, nós, quando não somos honestos em relação às coletas, dízimo e demais contribuições destinadas aos mais pobres ou outras finalidades maiores,  utilizando-nos dos bens da Comunidade em benefício de determinadas mordomias pessoais. A lei que Jesus exige é colocar em prática a vontade do Pai que ama toda pessoa e, em especial, os mais necessitados e desprezados.
          Jesus nos ensina a reconhecer a justiça das pessoas que não têm boa fama, mas praticam a justiça. Ensina-nos a denunciar, para o bem delas e de todos que sofrem sua influência, as que têm boa fama, os considerados santos, mas que não praticam a justiça, conforme o projeto do Pai. Jesus é o Filho que diz “sim” e faz o que o Pai decidiu. Todas as pessoas que acolhem e seguem concretamente Jesus cumprem a vontade do Pai.
          Ezequiel nos fala em praticar o direito e a justiça e a nos convertermos constantemente. Essa atitude julga a nossa vida. Julgar que somos “justos” é uma cegueira pessoal que faz semear dúvidas sobre a conduta e as crenças de quem é diferente de nós. Para fazermos a vontade do Pai, a Carta aos Filipenses nos mostra o caminho assumido por Jesus: “Esvaziou-se a si mesmo assumindo a condição de servo”. Jesus deixou de lado todo privilégio. O fato de sermos cristãos, de exercermos um ministério na Igreja, não deve ser motivo de elogios, de prepotência, de nos sentirmos mais e melhores que outras pessoas. É motivo sim de solidariedade, de espírito de comunhão e serviço; de um permanente processo de encarnação no mundo dos excluídos.
          Neste Dia da Bíblia, celebramos a Páscoa de Jesus Cristo que se revela nas pessoas que procuram viver o discipulado, obedientes à Palavra de Deus. Além da Liturgia da Palavra, parte integrante da liturgia cristã e constituindo com o rito eucarístico um só ato de culto (cf. Sacrosanctum Concilium, n.56), toda a celebração como memorial do mistério pascal de Jesus, no hoje de nossa vida, está inserida no conjunto da História da Salvação, da qual a Bíblia dá incomparável testemunho.
          No próximo dia 30, festa de São Jerônimo, estudioso da Bíblia, entramos em comunhão com as comunidades judaicas que celebram o Rosh há shaná, primeiro dia da festa de ano-novo judaico.
          Em cada celebração, colocamos em nossos lábios muitos cantos e palavras, repetimos orações e fazemos tantos gestos. Tudo isso terá sentido e agradará a Deus como oferta bendita se for expressão de um coração orante e comprometido com a vontade de Deus.
          A Palavra de Deus nos faz mergulhar em nossa fragilidade humana e nos leva a experimentar a bondade sempre fiel do Senhor que nos propõe mudança de vida e acredita em nossa conversão. Ele, porém, não se contenta que apenas o invoquemos, repetidamente: “Senhor, Senhor!”.
          Penso que devemos “Fazer amor com Deus”. Amá-lo e deixar-nos amar profundamente por Ele. Quando amamos, fazemos de tudo para agradar o amado. Mudamos até nossos hábitos e gostos. Porém, para “fazer amor”, é preciso sentir-se atraído pela outra pessoa e a ela entregar-se totalmente, sendo-lhe infinitamente fiel! Portanto, quem diz amar a Deus, mas não conhece Sua Palavra, Sua Vontade e não sente Seu amor, ao invés de “fazer amor com Deus”, prostitui-se.  Porque fazer amor com quem não se conhece, é prostituição, ou não?
Desejando a todos muitas bênçãos, com ternura e gratidão, nosso abraço amigo,
Pe. Gilberto Kasper

(Ler  Ez 18,25-28; Sl 24(25); Fl 2,1-11 e Mt 21,28-32).

sábado, 20 de setembro de 2014

VIGÉSIMO QUINTO DOMINGO DO TEMPO COMUM

COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
“Eu sou a salvação do povo, diz o Senhor.
se clamar por mim em qualquer provação,
eu o ouvirei e serei seu Deus para sempre”.

            “O Senhor é nossa salvação e está sempre pronto a ouvir e atender nossos clamores. Ele nos convida a participar da construção do reino de Deus e nos oferece a possibilidade de receber seus dons, ouvir sua palavra e experimentar seu amor para com toda a humanidade.
          Nossos pensamentos estão, às vezes, muito longe dos pensamentos de Deus. As parábolas de Jesus nos deixam inquietos precisamente porque mostram que a bondade e a justiça divinas superam nossos cálculos mesquinhos.
          Sempre é tempo de conversão, de buscar o Senhor. O cristão deve surpreender pela sua bondade com os mais fracos. A preocupação principal do evangelizador é dedicar-se à comunidade para que ela viva conforme o evangelho.
          A eucaristia nos dá ocasião de agradecer a Deus pelos dons recebidos e apresentar os frutos que a semente da palavra produziu em nós” (cf. Liturgia Diária de Setembro de 2014 da Paulus, pp. 65-68).
          A Palavra de Deus do Vigésimo Quinto Domingo do Tempo Comum nos faz uma pergunta muito pertinente: “Você está com ciúme porque estou sendo generoso?” As situações de ciúme e de inveja são muito percebidas e sentidas em nossas relações, as mais diversas: pessoais, familiares, eclesiais, sociais, políticas e de mercado de consumo...
          O Evangelho deste domingo nos leva a pensar no trabalho, na oportunidade de emprego, no sustento da família e na vida digna para todos. Angustia ao coração humano e sensível, muito mais à consciência dos cristãos, a multidão de desempregados, as pessoas que passam fome, a falta de moradias dignas, as injustiças sociais e do outro lado, o número privilegiado de pessoas ricas e poderosas que pouco se importam com os que não têm pão, casa e emprego. É uma divisão complicada e fere profundamente o coração humano.
          A liturgia deste Vigésimo Quinto Domingo do Tempo Comum – No Mês da Bíblia - nos ajuda a fazer uma reflexão sobre essa situação e nos aponta caminhos na perspectiva do patrão que saiu a contratar operários, desde a primeira hora, para trabalhar na sua vinha. Porém a liturgia corre o risco de ser lida e entendida de uma maneira espiritualista. Mas ela tem sérias implicações econômicas, políticas e sociais. A vinha, símbolo do povo de Israel, tem a missão de garantir vida e segurança para todos. O Senhor cerca e cuida dela para que produza frutos.
          Mas que frutos e para quem? A história da Igreja e dos cristãos é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. Vinha são os espaços dignos e alimentos necessários para os filhos e filhas de Deus. A Igreja e a comunidade têm a missão de cuidar dessa vinha para que produza justiça, liberdade e pão para todos.
          Recordamos hoje o apóstolo e evangelista São Mateus que apresenta Jesus como o Mestre da Justiça. Lemos seu Evangelho neste ano do calendário litúrgico.
          Para uma melhor compreensão da parábola do patrão justo, é bom ler Mateus de 19,30 até 20,16. Existe uma moldura para essa parábola: “Muitos primeiros serão últimos e últimos serão primeiros”.O versículo inicial anuncia a inversão de valores, e o final explica a relação correta entre Deus e a humanidade. É no trabalho cotidiano que Deus se revela e nós demonstramos nosso empenho pela justiça.
          Deus não é injusto ao ser generoso. A bondade de Deus ultrapassa os critérios humanos [...] Lembro-me ao meditar a Palavra deste domingo, de uma frase que marcou muito minha vida, proferida sempre por minha saudosa mãe: “Meu Filho, o combinado não sai caro!...”, querendo ensinar-me que devo sempre cumprir com o prometido, e fazer até mesmo mais do que prometi, quando estiver ao meu alcance. Isso não nos parece claro no Evangelho? [...] O que importa não é o quanto fazemos, mas o como fazemos.
          Deus ultrapassa todas as nossas limitações e o nosso jeito de entender a vida.  Tanto quanto as nuvens estão longe de nosso chão, assim são nossos planos de Deus com relação à nossa estreiteza de visão e de projetos. Mas Deus se deixa encontrar, está em nossos caminhos para transformá-los em caminhos de Deus. Isaías nos revela que Deus nos convida a abandonar nossas maquinações e assumir a generosidade de Deus. Assumindo o projeto de Jesus, nossos caminhos se aproximarão do caminho do único “Patrão” que devemos ter. “Patrão” que é o Pai de Jesus, Pai Nosso!
          Ciúme e Inveja atrapalham relações harmoniosas entre as pessoas. Um bom exercício para nós, nesta Vigésima Quinta Semana do Tempo Comum, poderia ser uma profunda revisão, desde as entranhas de nossa intimidade, o quanto temos sido generosos com os outros e o quanto temos prejudicado os outros em suas atividades pessoais, familiares, sociais, eclesiais (principalmente em nossas Comunidades e, sobretudo entre nós clérigos, já que não conheço pior dano do que a Inveja Clerical), políticas (quantos horrores ouvimos entre nossos políticos!..., dos interesseiros, que somam lamentavelmente a maioria, já que honestos dificilmente sobrevivem ao sistema corrupto e diabólico de nossa falsa democracia), profissionais e tantas outras atividades, até mesmo na esfera do voluntariado?
          Concluo minha reflexão com Santo Agostinho: “A esperança tem duas filhas, lindas, a raiva e a coragem. Raiva do estado das coisas e coragem para mudá-las!”. Não nos falte a Esperança de que podemos mudar as coisas, se quisermos e usar da coragem que o Senhor nos confere!
Desejando a todos muitas bênçãos, com ternura e gratidão, o abraço amigo e fiel,
Pe. Gilberto Kasper
(Ler Is 55,6-9; Sl 144(145); Fl 1,20-24.27 e Mt 20,1-16).


domingo, 14 de setembro de 2014

FESTA DA EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ


COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
“Deus não enviou o seu Filho ao mundo
para condenar o mundo, mas para que o
mundo seja salvo por ele” (cf. Jo, 3-17).

          “A festa da Exaltação da Santa Cruz, da qual deriva o rito da ‘Adoração da Santa Cruz’ na Sexta-feira Santa, tem origem no Oriente, com a celebração da dedicação das basílicas constantinianas no Gólgota e no Santo Sepulcro, no dia 13 de setembro de 335. Por volta do século VII, no dia 14 de setembro, surgiu o costume de expor a relíquia da Cruz aos fiéis que, segundo uma tradição, fora encontrada neste dia. Esta prática se sobrepõe à da festa da dedicação das basílicas, sobrepondo-se também o dia 14 ao dia 13.
          Em Roma, encontramos testemunhos desta festa por volta do século VII. Mais tarde, à festa foi acrescentada a comemoração da vitória de Heráclito sobre os persas em 630, dos quais foram recobradas as relíquias da Cruz, solenemente levadas de volta a Jerusalém. No início do século XIII, porém, a festa reforçou aquele segundo motivo com a prática da veneração das relíquias da Cruz feita pelo Papa e os Cardeais na Igreja Estacional de São Silvestre, sendo seguida de uma procissão até a Basílica de São João de Latrão ao canto do Te Deum. Na Lateranense celebrava-se a hora média do Ofício Divino e depois a Celebração Eucarística presidida pelo Papa.
          A Cruz para os judeus significa vergonha e escândalo; – castigo reservado ao pior dos bandidos na época de Jesus – para os Romanos, loucura, mas para nós Cristãos, a Cruz é sinal de Salvação!
            A Cruz é um grande sinal de contradição: expressão da morte ignomínia de Jesus como malfeitor, que provocou questionamentos e gerou inseguranças na ordem estabelecida pelos poderes religiosos e políticos e, ao mesmo tempo, sinal de entrega e esvaziamento – kenosis – de Jesus, obediente ao projeto do Pai de salvar a humanidade (conforme a Carta de São Paulo aos Filipenses), e isso lhe custou a morte de Cruz. Humilhação e doação de vida.
          Apesar do rechaço – lugares e instituições que não aceitam mais manter uma Cruz em seus espaços públicos – e da banalização – pessoas que ostentam a Cruz no peito como forma de demarcação das chamadas tribos urbanas -, a Cruz é para nós cristãos o sinal maior da nossa adesão a Jesus Cristo e da proclamação de sua ação salvadora.
          Exaltá-la por uma festa própria nos põe no centro da nossa espiritualidade cristã da vida que nasce do ‘dom de si’ de Jesus, para que o mundo tenha vida. De fato, afirma São Paulo: diferente dos judeus, que se escandalizaram da Cruz e dos pagãos que afirmam ser uma loucura perder a vida pelos outros, ‘nós, porém, proclamamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos. (...) Pois, o que é loucura de Deus é mais sábio que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte que os homens’ (1Cor 1,23.25).
          Há uma semana participamos do Grito dos Excluídos em nossas Dioceses e Regionais. Como o Mistério de Cristo ilumina a nossa realidade, não podemos nos esquecer da Cruz dos crucificados de hoje: pobres, idosos, crianças em risco e sem escola, moradores de rua, minorias, irmãos e irmãs traficadas e exploradas sexualmente, ‘rebaixados’ da sua condição humana e exaltados por sua condição de Filhos e Filhas, adquirida pela entrega salvadora de Cristo na Cruz. A humilhação de Cristo é solidariedade de Deus aos que ainda hoje são rebaixados e diminuídos.
          ‘Pusestes no lenho da Cruz a salvação da humanidade, para que a vida ressurgisse de onde a morte viera. E o que vencera na árvore do paraíso, na árvore da Cruz fosse vencido’ (cf. Prefácio Próprio da Festa). A morte veio da árvore do paraíso terrestre por meio de Adão. Mas, em Cristo, a vida ressurge. E o mal que vencera Adão, foi vencido por Cristo através da Cruz. A Cruz de Cristo é, portanto, o sinal de sua vitória e não de sua derrota; sinal da sua glorificação, vencendo a morte” (cf. Roteiros Homiléticos do Tempo Comum II da CNBB de 2014, pp. 14-19).
          Assim como não deve ter sido fácil ao entendimento humano na época da entrega total de Jesus na Cruz, ver o fim tão trágico daquele que todos esperavam ser o Senhor todo poderoso, ainda hoje, muitos não compreendem essa “loucura de Deus”, de deixar seu Filho entregue ao pior dos castigos, a Cruz. Com o Papa Francisco, afirmamos que é impossível chegar à Vitória, sem antes passar pela experiência da Cruz! O mistério da cruz não deve ser compreendido, mas acolhido no tesouro de nossa fé, que emerge da intimidade com Deus na pessoa de Jesus Cristo. Só quem é, de verdade, amigo de Jesus, crerá incondicionalmente no mistério da Cruz. Mistério não se explica, se aceita ou não! É na Cruz que encontramos meios eficazes de nossa santificação. Pois ela é nosso passaporte para a Ressurreição! Só então seremos verdadeiros cristãos! Muitas vezes nossa Cruz é alguém muito próximo, que precisa de nosso carinho, de nosso abraço, de nossa misericórdia e de nossa doação cheia de amor com sabor divino: totalmente desinteressado e gratuito!
Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, o abraço amigo,        
Pe. Gilberto Kasper

(Ler Nm 21,4-9; Sl 77(78); Fl 2,6-11 e Jo 3,13-17).

domingo, 7 de setembro de 2014

VIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM MÊS DA BÍBLIA


COMENTANDO A PALAVRA DE DEUS

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!
“Vós sois justo, Senhor, e justa é a vossa sentença;
tratai o vosso servo segundo a vossa misericórdia” (Sl 118,137.124).

            O Mês de Setembro é, especialmente, dedicado à Bíblia, incentivando-nos À Prioridade do Anúncio da Palavra de Deus. E o Vigésimo Terceiro Domingo do Tempo Comum nos apresenta o “Evangelho, em que Jesus nos convida ao diálogo para superar os conflitos e garante sua presença na comunidade reunida. Além disso, mostra que a correção fraterna, apesar de difícil, é belo gesto de ajuda entre irmãos que se amam e se respeitam.
          Neste dia da Pátria, queremos estender nosso olhar e nossa prece sobre todo o povo brasileiro e sobre os dirigentes da nação, especialmente os que serão eleitos daqui há menos de um mês, para que vigiem com carinho pelos pobres e sofredores.
          A Palavra de Deus nos diz que todos somos responsáveis uns pelos outros. O amor faz que nos preocupemos com as pessoas e nos impulsiona a dialogar com quem se desviou do caminho do bem.
          Somos responsáveis pela violência que faz tantas vítimas na sociedade. A correção fraterna deve ser realizada em clima de amor e de oração. O amor pelo próximo é a plenitude da lei.
          A Eucaristia é o sinal da comunhão fraterna. Participando do Corpo e Sangue do Senhor, tornamo-nos solidários no bem e afastamos de nós o egoísmo” (cf. Liturgia Diária de Setembro de 2014 da Paulus, pp. 30-32).
          Estamos na Semana da Pátria e entramos no mês dedicado à Bíblia. No Evangelho encontramos Jesus, o mestre da justiça, oferecendo ensinamentos e práticas geradores de novas relações e inspiradores de novas posturas na construção da sociedade justa e fraterna. A sua Palavra nos educa para o diálogo e a correção fraterna: única dívida que devemos ter uns com os outros.
          Que fatos e acontecimentos precisam ser lembrados na celebração deste final de semana e que nos ajudem a perceber e celebrar os sinais do Reino de Deus entre nós? Que avanços e sinais de vida digna para o povo brasileiro podemos constatar e celebrar na Semana da Pátria de 2014?
          Assumimos o grito ainda abafado de uma multidão incontável de excluídos, que lutam por respeito, dignidade, igualdade e cidadania, valores que o sistema social, político e econômico lhes tem negado em nosso país. Toda essa realidade, que ainda clama por reconciliação, ganha sentido e força no mistério da Páscoa do Senhor que celebramos.
          Pelo profeta Ezequiel somos convidados a sermos sentinelas do bem e da justiça na noite das injustiças que existem e que ceifam a vida de milhões. Garantir e cultivar a justiça é um compromisso inerente que temos com o Deus da vida e da liberdade. Até que ponto a profecia de Ezequiel não deveria ser acordada hoje na missão da Igreja, promotora da vida e solidária com os excluídos?
O salmista nos pergunta se não abandonamos a aliança, não esquecemos o nosso Deus e nos instalamos numa religião fácil, sem compromissos com a criação e os mandamentos de Deus?
          Na Carta aos Romanos, Paulo nos dá a entender que há uma só maneira de amarmos a Deus que é amando o próximo, a cada pessoa, do jeito que ela é, e ninguém escolhe o próximo para amá-lo. Ele simplesmente se apresenta como dom de Deus e também como desafio à nossa capacidade de amar. Temos muita consciência que somos devedores diante de Deus de uma dívida impagável, a não ser que sejamos capazes de gestos gratuitos como os de Jesus, que se entregou radicalmente por amor.
          Quem ofendeu um membro da Comunidade rompeu com a Comunidade toda. O Evangelho nos convida a fazer de tudo, apelar a toda a criatividade para que reine entre nós o jeito de ser de Jesus. Mas, se não lhe der ouvidos, convide uma ou duas pessoas para ajudar no diálogo. Se mesmo assim não houver reconciliação, só depois de muitas tentativas é que se recorre à Comunidade, que age em nome de Jesus, ajudando nos conflitos e nas necessidades dos irmãos. Parece até que estamos pressionando o irmão, mas como se trata da justiça do Reino, precisamos fazer de tudo para que o irmão não se perca, não saia da caminhada da Comunidade, do seguimento fiel a Jesus e volte-se para as exigências evangélicas. E se nada der resultado satisfatório? Só aí a Comunidade tomará conhecimento do erro e será chamada a tomar uma decisão: Caso não der ouvidos, comunique à Igreja.
          Antes de denunciar, denegrir ou excluir é necessário acolher, perdoar, aconselhar e colocar em contato com o bem, inserir na Comunidade fraterna e fazer de tudo para que as pessoas não se afastem do bem e da prática da justiça. O Papa Francisco insiste tanto nisso em suas alocuções, sobretudo em seu primeiro livro: A Igreja da Misericórdia! Mas em nossas Comunidades acontece, frequentemente, o contrário: quantos líderes conhecemos que simplesmente se sentem no direito de excluir e mandar embora os filhos que ajudaram a escrever a história de suas Paróquias. Em minha opinião isso é diabólico e precisa urgentemente mudar! Nenhum Padre tem o direito de exigir que sua comunidade se adapte aos seus caprichos e não poucas vezes aos seus desequilíbrios afetivos e emocionais. Tais pastores não são configurados a Jesus, mas fazem da Igreja um trampolim para a própria sobrevivência. Não faltam casos concretos entre nós, que me parece gritar por uma séria conversão pastoral da Paróquia!
          Do começo ao fim dos Evangelhos, Jesus prega ser o Reino de Deus um Reino de Justiça. Logo onde não há Justiça, também não se sentirá o sabor do Reino de Deus! Ao lado da Justiça soma-se a Misericórdia, cujo resultado é o verdadeiro Amor com sabor divino!
          Tive, na Alemanha, um Reitor no Seminário, que detestava Dedo-Duro. Costumava dizer que, geralmente atrás de alguém que denuncia o erro do outro, gratuitamente, esconde o próprio erro atrás do erro desse outro. É o contrário da mensagem da Palavra deste domingo, que sugere a correção fraterna. Em nossas Comunidades, mas principalmente entre os próprios Ministros Ordenados, é muito frequente o caminho inverso do sugerido pelo Evangelho. Primeiro espalha-se o erro do irmão na Comunidade, difamando-o o quanto possível, para abastecer-se de argumentos a serem levados à autoridade eclesial: no caso da Comunidade, o Padre; no caso do Clero, o Bispo, e geralmente o último, a saber, que errou, é o irmão já totalmente difamado, triturado, esmagado pelos demais. Como isso é feio. Quem não tem a capacidade de corrigir fraternalmente o irmão, é também incapaz de perdoar e amar. Muitos se sentem tão “perfeitos e corretos” que não aceitam correção. A prepotência e a arrogância não permitem e não dão espaço nem mesmo a um exame da própria consciência. Esses geralmente se alegram em “pisar naqueles que erram” e na maioria das vezes os excluem de suas Comunidades que não têm espaço para pessoas que não agradam, não pensam como nós, ou questionam determinadas hipocrisias nossas. É mais fácil mandar embora do que dialogar com o “diferente” ou o “difícil”. Existe algo mais anti- evangélico do que dizer: “Em minha Paróquia eu fiz uma limpeza de pessoas insuportáveis... Quem não aceita dançar a música que eu tocar, sinta-se desconvidado...” Pior do que isso é aquele Sacerdote ou Agente de Pastoral, que além de não ter a capacidade de perdoar, talvez porque nunca tenha feito a experiência do verdadeiro amor de Cristo Misericordioso, sentir-se vitorioso por ter esvaziado sua Comunidade, desrespeitando a história da mesma, que certamente não começou com a chegada dele; ter o apoio de seus Superiores para surrar e machucar suas ovelhas, como se fossem inúteis. Este tipo de endeusamento clerical seguramente lhe garantirá aquele estado de vida descrito pelo próprio Cristo, como “Lugar do fogo do inferno, onde haverá choro e ranger de dentes...”.
          Rezemos pela conversão de nossa Igreja, a começar de nós Presbíteros, a fim de que prevaleça o Amor! Quem realmente se sente configurado com Cristo, o Bom Pastor, ama e acolhe quem lhe é confiado para tornar-se a verdadeira Igreja de Jesus Cristo e não desse ou daquele ministro, seja ele ordenado ou não.
                    Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, meu abraço amigo,
Pe. Gilberto Kasper
(Ler Ez 33,7-9; Sl 94(95); Rm 13,8-10 e Mt 18,15-20).