sexta-feira, 30 de março de 2012

HOMILIA PARA O DOMINGO DE RAMOS DE 2012



HOMILIA PARA O DOMINGO DE RAMOS DE 2012

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!

“Com a celebração do Domingo de Ramos e da Paixão, entramos na Semana Santa. O que é a Semana Santa? Por que ela é tão importante na dinâmica do ano litúrgico?
Na Semana Santa celebramos a História da Salvação de um Deus que se humilhou e tornou-se homem para caminhar conosco, conhecer a nossa história e nos apontar caminhos de vida. Mas não é só isso. No Getsêmani, Jesus experimenta uma grande tristeza e sente a dor da angústia. Suspenso entre o céu e a terra numa cruz, ele vive o doloroso abandono por parte do Pai. Enfrenta a traição de Judas que, com um beijo, o entrega aos seus inimigos. Pedro não o reconhece na presença de uma empregada. Os discípulos, seus amigos prediletos, fogem e o deixam sozinho nas mãos dos soldados. A condenação forjada é tramada para eliminar sua pessoa e os desígnios de Deus nele manifestos. Jesus, o Servo Sofredor, despido de toda dignidade é reduzida a um farrapo humano. Ele assume e faz seus todos os sofrimentos. Em sua morte e ressurreição, estão presentes todos os sofrimentos humanos [...].
Façamos um minutinho de silêncio, olhemos para dentro de nós, até as entranhas de nossa intimidade, de nossa consciência. Depois olhemos ao nosso redor. Existem situações parecidas com as de Jesus em nossas relações humanas: sociais, eclesiais, políticas, familiares? Por acaso não sou também eu responsável por determinadas traições, exclusões, condenações injustas, que gritam fortemente em algumas pessoas de minhas relações e, que me remetem a situações de nudez, constrangimento, flagelo, dor, solidão e farrapo humano, a exemplo do Mestre? Um bom exame de consciência, com toda a honestidade e transparência talvez nos surpreenda... Mas ainda há tempo de mudar! [...]
A Semana Santa, tempo de comunhão e solidariedade com e em Jesus, é um tempo santo e precioso para entrarmos na História da Salvação e da Libertação. Somos convidados a tomar parte nesta história como agentes, como discípulos missionários, não permitindo que o pecado, que levou Jesus à morte e ainda destrói tantas vidas, invada o nosso ser e o nosso agir.
Nesta Semana, meditamos o Evangelho de Jesus, contemplamos sua prática, acolhemos sua proposta de doação e partilha, entramos em sua atitude de obediência ao Pai e de serviço à humanidade.
A Palavra que ouvimos na celebração deste Domingo de Ramos e da Paixão é muito forte. Ela nos confronta com nossa própria fé, com o modo como a vivemos e testemunhamos. No Evangelho que segue a bênção dos ramos, vemos Jesus a caminho de Jerusalém. Em que ponto deste caminho nós estamos? Estamos à frente, atrás ou nos mantemos à beira da estrada? Exultamos convictos: “bendito o que vem em nome do Senhor” ou o fazemos superficialmente, levados pelo “embalo da multidão”?
Não basta clamar “bendito o que vem em nome do Senhor”. Urge agir e ser para que efetivamente haja espaço para ele se tornar presente em nossa sociedade. Há várias formas de buscar que isto se realize, uma delas é nos fazermos portadores da paz, que é fruto da justiça. É assumir, apesar de todas as pedras no caminho, o chamado que nos é feito e, a exemplo do servo sofredor, poder dizer: “não lhe resisti nem voltei atrás... sei que não sairei humilhado”.
Esta certeza nos é reforçada pelo próprio Cristo que se esvaziou, se humilhou e depois foi por Deus Pai exaltado. Participar da Eucaristia significa viver o mistério de Jesus Cristo em sua totalidade. Neste Domingo de Ramos, porém, somos chamados a viver mais intensamente sua paixão e morte e, com o hino da Campanha da Fraternidade, reafirmar: “Tu, que vieste para que todos tenham vida, cura teu povo dessa dor em que se encerra; que a fé nos salve e nos dê força nessa lida, e que a saúde se difunda sobre a terra”.
O evangelho da Paixão nos conduz à contemplação. O sofrimento intenso de Jesus nos faz ver o quanto o projeto de amor e paz que ele trouxe entra em choque com o contexto mundano. A grande lição da Paixão é a paciência em meio às provações. Dedução muito fácil de fazer, mas difícil de pôr em prática. Somos convidados à firmeza de Jesus em meio às contrariedades.
É preciso fazer o mesmo que fez Paulo, que não hesitou em recomendar a contemplação do próprio mistério da kénosis para animar a vida quotidiana dos cristãos. A humildade, à imagem do Cristo, contribui para a qualidade de vida entre os membros da comunidade. “Tende um mesmo amor, numa só alma, num só pensamento; nada façais por competição e vanglória, mas com humildade, julgando os outros como superiores a si mesmo, não visando ao próprio interesse, mas ao dos outros. Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus” (Fl 2,2-5).
Unidos com toda a Igreja no Brasil, concluímos neste domingo a primeira etapa da Campanha da Fraternidade 2012. Além da nossa conscientização sobre o problema, os desafios e as perspectivas da saúde em nosso país, é o dia de realizarmos o gesto concreto, pois a CF se expressa concretamente pela oferta de doações em dinheiro, na Coleta da Solidariedade. É um gesto concreto de fraternidade, partilha e solidariedade, feito em âmbito nacional, em todas as comunidades cristãs, paróquias e dioceses. A Coleta da Solidariedade é parte integrante da Campanha da Fraternidade. O gesto fraterno da oferta tem um caráter de conversão quaresmal, condição para que advenha um novo tempo marcado pelo amor e pela valorização da vida” (cf. Roteiros Homiléticos da CNBB n. 20, pp. 63-69).
Possamos viver intensamente, a começar das celebrações do Domingo de Ramos e da Paixão as riquezas de toda a Semana Santa, especialmente do Tríduo Pascal! Levemos no envelope da Coleta da Solidariedade, os frutos saborosos de nossos exercícios quaresmais de penitência, como o jejum e a abstinência. Pensemos naqueles que têm menos do que nós e sejamos generosos e honestos diante de nossa consciência, de Deus e da Comunidade!

Desejando-lhes abençoada Semana Santa, com ternura e gratidão, o abraço amigo,
Pe. Gilberto Kasper

Terço das Dores de Nossa Senhora

Oração Inicial:

"Virgem Dolorosíssima , seríamos ingratos se não nos esforçássemos em promover a memória e o culto de Vossas Dores. Vosso Divino Filho tem vinculado à Devoção de Vossas dores, particulares graças para uma sincera penitência , oportunos auxílios, e socorros em todas as necessidades e perigos. Alcançai-nos ,Senhora, de Vosso Divino Filho, pelos méritos de Vossas Dores e Lágrimas, a Graça...(pede-se a graça). Amém.
Nas três primeiras contas:

"Pai Nosso, 3 Ave-Marias , Glória
Contempla-se os mistérios das Dores de Nossa Senhora na terra.

SETE MISTÉRIOS.

1º A espada a transpassar a Alma- Conforme a profecia do Velho Simeão, no Templo.

Ó Magoada Senhora e Mãe Querida das Dores, vejo-vos com trêmulos braços apresentar o Vosso Filhinho, aos braços de Simeão, e em retorno , ouço este Santo velho dizer-Vos: "- A Tua Alma será Transpassada por uma grande Dor aguda!" Já começa a cumprir-se a profecia, por que ao ouvirdes estas palavras começais a sentir já a primeira lançada, que não sairá mais do Vosso Terníssimo Coração, enquanto estiveres na Terra... Reparti-a comigo, alcançando-me a grande dor de minhas culpas, que foram a causa de Vossas Dores...
Pai Nosso ... 7 Ave-Marias... Glória.

"Salve Ó Mãe dolorosa , Amparo dos filhos amados, dai-nos por Vossas Dores, a dor de nossos pecados."
RESOLUÇÃO: Evitarei hoje todas as faltas voluntárias, e nas horas de tentação, chamarei por Nossa Senhora...

2º A fuga da Sagrada Família para o Egito.

Virgem Santíssima e Mãe Querida das Dores, vejo-Vos sair apressada, apertando ao Seio Virginal Vosso Infinito Tesouro e correr terras estranhascom tantas fadigas, para O salvar da fúria do impio Herodes. Reparti comigo esta Dor, alcançando-me a Graça de fugir de todas as ocasiões de matar em minha alma, a Graça Divina, o fruto de Vossas Dores...
Pai Nosso ... 7 Ave-Marias... Glória.

"Salve Ó Mãe dolorosa , Amparo dos filhos amados, dai-nos por Vossas Dores, a dor de nossos pecados."
RESOLUÇÃO: Evitarei hoje, em honra desta Segunda Dor, todas as ocasiões de pecado, fugindo de todas aquelas pessoas que murmuram...

3º Nossa Senhora perde o seu Divino Filho por três dias.

Mãe Santíssima das Dores, Minha Dulcíssima Rainha, ouço os angustiados suspiros com que, por três dias contínuos debulhada em prantos, buscais o Vosso Amável Filho, sem que entre conhecidos e parentes tenhais novas Dele... Reparti comigo esta Dor Prolongada, alcaçando-me a dor de o haver tantas vezes perdido pelo pecado, e a Graça de nunca mais me apartar Dele até que (pelo Vosso Coração Imaculado, venha a)me unir a Ele para sempre no Céu.
Pai Nosso ... 7 Ave-Marias... Glória.

"Salve Ó Mãe dolorosa , Amparo dos filhos amados, dai-nos por Vossas Dores, a dor de nossos pecados."
RESOLUÇÃO: Pedirei hoje muitas vezes ao dia a Nossa Senhora, pelos méritos desta Terceira Dor, a Graça de fazer as minhas ações para a Glória de Deus...

4º O encontro com Nosso Senhor todo flagelado e carregando a sua pesadíssima Cruz nas costas.

Mãe Santíssima das Dores e minha Terna Senhora, escuto Vossos soluços por entre o tropel do povo e soldados, buscando o Vosso Jesus, e o encontrais aí Senhora! curvado debaixo do grande madeiro, esvaído de forças, lançando-lhes (aos Seus algozes) olhares de compaixão, que dobram a Vossa amargura ... Reparti comigo a Vossa arcebíssima Dor, alcançando-me a Graça de conhecer a malícia dos meus pecados, com que oprimi o ombro de Vosso Jesus, e o Vosso Terníssimo Coração...
Pai Nosso ... 7 Ave-Marias... Glória.

"Salve Ó Mãe dolorosa , Amparo dos filhos amados, dai-nos por Vossas Dores, a dor de nossos pecados."
RESOLUÇÃO: Em honra desta grande Dor de Nossa Senhora, eu rezarei hoje muitas vezes o ato de contrição, pedindo a Jesus crucificado, que por esta Dor de Sua Mãe, imprima em minha alma o horror ao pecado...

5º A bárbara crucificação e morte de seu Divino Filho.

Mãe Santíssima das Dores, minha Amabilíssima, que vejo neste momento! O Vosso Divino Filho alçado em uma Cruz, pendente de três cravos, morrer depois de três horas de uma tormentosa agonia ... Reparti comigo, Aflitíssima Mãe, a Vossa Dor, alcançando-me a Graça de morrer na santa amizade de Deus, e em Vossos Santíssimos Braçõs dizendo: "- Jesus e Maria , eu Vos dou o meu coração e a minha alma..."
Pai Nosso ... 7 Ave-Marias... Glória.

"Salve Ó Mãe dolorosa , Amparo dos filhos amados, dai-nos por Vossas Dores, a dor de nossos pecados."
RESOLUÇÃO: Em honra desta Dor de Nossa Senhora, farei hoje muitos atos de amor a Jesus e a Maria, invocando os merecimentos da Paixão e Morte de Jesus, ofertando-os ao Pai Eterno em desconto dos meus pecados e pedindo-Lhe, uma santa morte.

6º Nossa Senhora recebe em seus braços seu Filho inteiramente chagado e transpassado pela lança.

Ó Mãe, a mais amargurada de todas as mães, vejo-vos tomar o Vosso Divino Filho em Vossos Braçõs, mas Ele está Morto...Ó que imensa Dor! Sois aqui a Rainha dos Mártires! À Vossa Dor, não há dor que se possa igualar! É um imenso mar de amarguras... Reparti comigo a Vossa Dor, alcançando-me o dom das lágrimas , e a compaixão pelos sofrimentos do Vosso Divino Filho, meu Salvador... Fazei com que esta Vossa Dor penetre bem no íntimo de minha alma e me dê a fome de receber a Imaculada Comunhão.
Pai Nosso ... 7 Ave-Marias... Glória.

"Salve Ó Mãe dolorosa , Amparo dos filhos amados, dai-nos por Vossas Dores, a dor de nossos pecados."
RESOLUÇÃO: Durante este dia irei em espírito muitas vezes ao Calvário e alí, aos pés da Cruz, vendo Nossa Senhora com Jesus em Seus Braços, Lhe pedirei que me abrase em desejos da Sagrada Comunhão e me purifique nas Chagas de Jesus...

7º Nossa Senhora acompanha o seu Divino filho à sepultura.

Ó Mãe Querida das Dores, minha Mãe Dolorosíssima, chegou finalmente ao termo a Vossa Dor... O Vosso Coração transborda aqui de amarguras! Ficais na mais desolada viuvez... Reparti comigo esta Dor sem alívio, alcançando-me a Graça de viver suspirando pelo Céu, onde poderei contemplar a Jesus, já sem véus, e a Vós, Mãe Querida do Belo Amor...
Pai Nosso ... 7 Ave-Marias... Glória.

"Salve Ó Mãe dolorosa , Amparo dos filhos amados, dai-nos por Vossas Dores, a dor de nossos pecados."
RESOLUÇÃO: Pedirei hoje muitas vezes a Nossa Senhora, que por esta Dor, me desprenda das coisas da terra, e me dê o desejo do Céu...

Rezar Três Ave Marias em reverência às Lágrimas da Santíssima Virgem para lucrar as Indulgências concedidas pelos Sumos Pontífices, impetrando-lhe verdadeira dor de nossos pecados.

Oração final:

"Dai-nos, Senhora a Graça de compreender o oceano de angústias, que fizeram de Vós a "Mãe das Dores", para que possamos participar de Vossos Sofrimentos, e Vos consolemos pelo nosso amor e nossa fidelidade. Choramos Convosco, Ó Rainha dos Mártires, na esperança de ter a felicidade de um dia nos alegrarmos Convosco no Céu... Perante a Vossa Clemência , nós Vo-lo pedimos, Senhor Jesus Cristo, interceda por nós, agora e na hora da nossa morte, a Bem-Aventurada Virgem Maria, Vossa Mãe, cuja Alma Santíssima foi transpassada por uma 'espada de Dor'... Por Vós Jesus Cristo, Salvador do mundo, que, com o Pai e o Espírito Santo, Viveis e Reinais por todos os séculos dos séculos... Amém.

O Corpo que ela criou


Amados irmãos, considerai, colocai na balança, suplico-vos, ó como devemos ser agradecidos à bem-aventurada Mãe de Deus, e quantas ações de graças devemos prestar-lhe junto a Deus, por este grande bem.

Pois o Corpo de Cristo gerado por ela, e levado em seu seio, este corpo que ela envolveu em panos e cueiros, que ela aleitou com materna solicitude, é o mesmo Corpo que nós recebemos no altar. No sacramento da nossa redenção, é este Sangue que bebemos. Eis o que a fé católica nos revela e a Santa Igreja nos ensina.

Não, não existe palavra humana capaz de louvar dignamente aquela escolhida pelo Medianeiro de Deus e dos homens como sendo a carne que geraria a Sua carne. Qualquer honra que possamos atribuir-lhe, estaria abaixo de seus méritos, pois foi ela a preparar, de suas castas entranhas, a carne imaculada, alimento das almas...


São Pedro Damião (1007-1072)

Mãe de Jesus Cristo, quero agradecer-vos!


"Meio-dia. Noto que a igreja está aberta. Sinto necessidade de entrar. Mãe de Jesus Cristo, eu não venho para rezar ou pedir algo. Não tenho nada para oferecer nem para pedir. Mãe, venho, apenas, para vos olhar. Para vos admirar, para chorar de felicidade, saber que sou vosso filho e que vós estais aqui. Apenas por um breve momento, enquanto tudo o mais, para mim, deixa de existir. Meio-dia! Estar convosco, Maria, neste recinto em que vós vos encontrais. Calado, sem nada dizer, olhar o vosso rosto, deixar que o coração entoe a sua própria linguagem. Nada dizer, somente cantar, porque, diante de vós, temos o coração repleto de felicidade, como o pássaro, como o melro que segue suas idéias numa espécie de versos inspirados, repentinos. Porque sois bela, porque sois imaculada, a mulher, que, enfim, recuperou a Graça, a Criatura na sua honra, na sua dignidade primeira, e no seu desabrochar final, tal como nasceu de Deus, na manhã de seu esplendor original. Inefavelmente intacta, porque sois a Mãe de Jesus Cristo, que é a Verdade entre vossos braços, a única Esperança e o único Fruto. Porque vós sois a Mulher, o Éden da antiga ternura esquecida, cujo olhar encontra o coração perfeito e faz jorrar as lágrimas acumuladas, porque vós me salvastes, porque vós salvastes a França, porque a França, igualmente, assim como eu, é para vós objeto de carinho, porque interviestes ternamente, no momento em que tudo desabava, porque salvastes a França mais uma vez, porque agora é meio-dia, porque vós estais presente para sempre, porque é meio-dia, porque aqui estamos, neste dia, porque aqui estais para sempre, simplesmente porque sois Maria, simplesmente porque existis, Mãe de Jesus Cristo, quero agradecer-vos!"


Paul Claudel
Convertido diante da estátua da Virgem, em Notre-Dame (Natal de 1886)

terça-feira, 27 de março de 2012

Liturgia bem participada



Liturgia bem participada


A participação ativa da assembleia nas celebrações do mistério pascal de Cristo é a razão de ser da liturgia. Evidentemente, participação não é fazer muitas coisas, mas envolver-se inteiramente, com o corpo e o coração, no mistério celebrado. Como alguém que acredita e vive o que celebra com fé e alegria.

O centro de toda a celebração está na presença de Cristo Ressuscitado, conforme o número 7 da Sacrosactum Concilium: “Para realizar tão grande obra, Cristo está sempre presente em sua Igreja, e especialmente nas ações litúrgicas. Está presente no santo sacrifício da missa, tanto na pessoa do ministro, pois aquele que agora se oferece pelo ministério sacerdotal é o ‘mesmo que, outrora, se ofereceu na cruz’, como sobretudo nas espécies eucarísticas. Ele está presente pela sua virtude nos sacramentos, de tal modo que, quando alguém batiza, é o próprio Cristo quem batiza. Esta presente na sua palavra, pois é ele quem fala quando na Igreja se lêem as Sagradas Escrituras. Está presente, por fim, quando a Igreja ora e salmodia, ele que prometeu: ‘onde se acharem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles’ (Mt 18,20).”

A centralidade da ação litúrgica, sobretudo na Eucaristia, é simbolizada pelas duas mesas: a da Palavra e a da Eucaristia, o altar. Todos nós nos voltados para Cristo Palavra, quando se lêem as Escrituras e para Cristo Pão da vida, na Oração Eucarística, seguida da comunhão sacramental ao Corpo e Sangue de Cristo. Na ação litúrgica, estamos todos voltados para Cristo sempre. Por isso podemos responder ao convite “Corações ao alto” com “O nosso coração está em Deus.”

A mesa da Eucaristia é o centro visível do espaço celebrativo, onde se realiza a Ceia do Senhor, o Cordeiro imolado e vitorioso. Ali se reúne o povo santo de Deus na comunhão de amor com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

+ Joviano de Lima Júnior,sss
Arcebispo de Ribeirão Preto

A CULTURA DA ÉTICA MOLDA O SER HUMANO

Pe. Gilberto Kasper
pe.kasper@gmail.com


Mestre em Teologia Moral, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário, Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto e Jornalista.

O homem apresenta-se sob dois prismas: como ser real, na sua individualidade, nas suas circunstâncias, e o ser pensado. O primeiro é o que existe e diz concretamente “eu” e “meu”, ao passo que o segundo está na mente. É o conceito que dele fazemos, ou o conhecimento que dele lemos.
Sempre nos referimos ao homem através do conceito. Na verdade não referimos o homem real, mas o homem pensado. O primeiro é fruto da natureza. É a vida que se propaga e transmite através de geração e do batismo. O segundo é obra da cultura. Segue o imperativo socrático: “conhece-te a ti mesmo”.
A partir do conhecimento que temos do homem e de nós mesmos, atuamos na nossa realização. Somos chamados a ser mais. Por isso se diz, com toda razão, que somos mais filhos da cultura que da natureza. É nossa autodeterminação, fruto de nossa liberdade. Tenho não só consciência de mim, mas também, de algum modo, posse de mim e de meus atos. Eu me decido a mim mesmo. Sou, portanto, de alguma maneira, o que me fiz ser.
A cultura vai moldando diversamente, ao longo dos tempos, o ser humano. Mas A Cultura da Ética molda o ser humano, como princípio básico, sua integridade, sua responsabilidade, seu respeito às leis, o respeito pelos direitos dos demais cidadãos, o amor ao trabalho, o esforço para economizar e investir, o desejo de superar os desafios, a pontualidade e o cumprimento das promessas feitas, de algum modo e em determinada situação.
Não somos pobres porque nos faltam recursos naturais ou porque a natureza foi cruel conosco. Somos pobres porque nos faltam atitudes, determinação e grande vontade política, seja dos cidadãos, seja dos que ocupam algum serviço público. Os cidadãos não exercem suficientemente sua cidadania e as pessoas públicas não servem devidamente seu público.
Somos assim e continuaremos a ser assim por querer levar vantagem sobre tudo e sobre todos. Somos assim por vermos algo que está mal e dizermos: “Deixa como está... Não é de minha competência... Não vou envolver-me nisso... Deixa quieto, que poderá piorar...”. Omissão pura, falta de profetismo, de cidadania e de ética, o que nos torna covardes, quando não hipócritas.
Devemos ter atitudes e memória viva, sobretudo em Ano Eleitoral. Dependerá de cada um de nós, mudarmos a realidade de nossas cidades. Se pensarmos no bem comum e não individual, certamente teremos Governos mais comprometidos com a melhor qualidade de vida para todos e não apenas para alguns poucos grupos privilegiados.

sexta-feira, 23 de março de 2012

HOMILIA PARA O QUINTO DOMINGO DA QUARESMA DE 2012

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!

“Estamos chegando ao final da Quaresma. No próximo domingo iniciaremos a Semana Santa com o Domingo de Ramos. Neste dia, também concluiremos a primeira etapa da Campanha da Fraternidade 2012. Com o gesto concreto da coleta manifestamos nossa atitude de partilha e solidariedade. [...]
A Coleta da Solidariedade do próximo domingo, será o resultado de nossos exercícios quaresmais de penitência, certamente frutos saborosos de nosso jejum e abstinência ao longo deste rico tempo de conversão. Partilharemos de nossa Pobreza com quem tem menos do que nós. Tudo aquilo que deixamos de consumir durante a Quaresma será oferta agradável ao coração de Deus, através de nossas Comunidades de Fé, que enviarão toda a coleta à Cúria Metropolitana, que a destinará aos projetos, sobretudo relacionados à Saúde de nossos irmãos menos favorecidos. Do total desta coleta 40% serão enviados à CNBB e 60% serão administrados pela Arquidiocese, que sempre faz a devida prestação de contas divulgada no site da mesma: www.arquidioceserp.org.br [...]
Na celebração do Quinto Domingo da Quaresma somos convidados a ver Jesus em sua missão recebida do Pai. Seguimos os passos dos gregos que subiram a Jerusalém para adorar a Deus. Mas eles querem ver Jesus. O que significa ver Jesus? Por que ver Jesus? Ver Jesus é compreender sua atitude e desvendar seu projeto. Jesus mesmo o explica, fazendo uma meditação sobre a ‘hora’.
‘Hora’ é o final de sua vida terrestre. Tudo caminha para essa hora. A ‘hora’ é o momento no qual o amor gratuito de Deus, materializado em seu carinho pelos pobres, encontra-se com a força social e religiosa que o rejeita: o pecado. Esse conflito expressa-se na cruz. Por isso, a cruz é levantada como denúncia daquilo que leva Jesus à morte e como testemunho de sua entrega de amor.
Na primeira leitura temos a profecia de Jeremias sobre a nova aliança a qual nós vivemos hoje. Em Cristo repousa a nova aliança. Para estar nessa aliança, precisamos da força pascal do Cristo. Essa força nós recebemos no Batismo e continuamos recebendo na celebração dos sacramentos e na oração da Igreja: é o Espírito de Cristo, a lei da nova aliança, escrita no coração de cada um de nós.
Em Hebreus, colhemos uma lição preciosa: Jesus não é um senhor sentado nos palácios, desligado da situação real das pessoas. Jesus não permaneceu nos céus, contemplando as nossas angústias, mas tornou-se companheiro de viagem. Percorreu o caminho da humilhação e da morte. Por tudo isso, podemos confiar nele e aceitar o convite que nos faz para sermos discípulos missionários. Dessa forma, a segunda leitura nos convida a seguir o mesmo caminho de Cristo, um caminho semeado de dificuldades. Ele, porém, o percorreu antes de nós e por isso compreende nossas dificuldades e incertezas, nossos receios e fraquezas. [...]
E a nossa presença junto aos que sofrem, aos enfermos, idosos, como vai? Somos, como Jesus, uma ‘Igreja do Ir’ ao encontro das pessoas ou nossa Pastoral e Ministério se resumem em celebrar com os que vem, quando não excluímos os que não preenchem nosso ‘legalismo’? [...]
O episódio do evangelho de hoje situa-se entre a ressurreição de Lázaro e a última Ceia, segundo o quarto Evangelho. A agressividade dos adversários de Jesus chegou ao auge. A Paixão já é tramada nos gabinetes. Os sumos sacerdotes haviam dado ordens: Se alguém soubesse onde Jesus estava, o indicasse, para que o prendessem (João 11,57). [...] Prenderam-no por pura inveja! [...]
No evangelho, no entanto, Jesus convida seus discípulos a seguirem o gesto prudente do agricultor que semeia. Diz-lhes para não terem medo de perder a própria vida, porque quem morre por amor entra na glória de Deus. O evangelho interpreta a morte de Jesus como uma manifestação de seu amor. Para ele o homem cresce e se realiza somente quando ama, ou seja, quando doa sua vida pelos irmãos.
Para Cristo, o homem atinge o ponto mais alto da realização de sua vida quando se entrega à morte por amor aos seus. [...]
Penso ser urgente revermos o verdadeiro sentido da morte em nossos dias. Não obstante vivamos e promovamos certa Cultura de Morte, insensibilizados com as dezenas de mortes assistidas diariamente em nossos telejornais, ela, a morte, é ao mesmo tempo um tabu, na medida em que passa dentro de nossa casa ou por perto dela. Não acredito que alguém morra na véspera ou atrasado. Mas quantas pessoas têm direito a uma morte digna, quando nossa Saúde Pública se encontra falida, sem conseguir atender dignamente a todos que dela dependem? Se antigamente as pessoas morriam no aconchego do carinho da família, hoje é submetida a morrer sozinha na frieza de CTIs - Centros de Terapia Intensiva ou em corredores de hospitais superlotados, principalmente quando não há convênios ou quando tais moribundos dependem exclusivamente do SUS – Sistema Único de Saúde, que serve de modelo para países economicamente desenvolvidos, mas não serve os filhos da própria nação. Não é deste tipo de morte que o Evangelho deste domingo fala. Se Jesus veio para curar e fazer o bem, certamente não aprovaria o que se passa nos bastidores de nossa precária e corrompida Saúde Pública, prometida, de eleição em eleição, tornar-se a melhor do mundo, mas que de governo em governo envergonha nossa nação. Há os tipos de mortes que nos santificam, como: gestos de ternura, delicadeza, gratidão, reconhecimento, abrir mão de privilégios em favor do próximo, etc. Se soubéssemos aproveitar tais oportunidades, seguramente seríamos bem mais humanos e configurados com Cristo, que nos convida a passarmos por tais experiências, promovendo-nos mutuamente em tudo. [...]
O homem quer frutificar sem morrer, mas é impossível. Jesus aceita ser grão que morre debaixo da terra para dar fruto abundante. Em Jesus se dão as mãos duas realidades fortemente antagônicas: a morte e a fecundidade. Na conjunção de perder o mundo para ganhar o mundo resume-se o mistério pascal de Jesus Cristo” (cf. Roteiros Homiléticos da CNBB n. 20, pp. 56-62).

Precisamos aprender a lidar melhor com a morte, a fim de estarmos prontos no dia em que nosso nome ecoar na eternidade. Cada morte que passa por nós, poderá ser um novo esforço a melhorarmos nossa qualidade de vida!
A Igreja transfere a Solenidade da Anunciação do Senhor para a segunda-feira, dia 26 de Março. Na Igreja Santo Antoninho, celebraremos esta festa na Terça-Feira, dia 27 às 8 horas com a Bênção dos Pães do Pobres.
Desejando-lhes abundantes bênçãos, com ternura, nosso abraço amigo e nossa gratidão,
Pe. Gilberto Kasper
(Ler Jr 31,31-34; Sl 50(51); Hb 5,7-9 e Jo 12,20-33)

sexta-feira, 16 de março de 2012

HOMILIA PARA O QUARTO DOMINGO DA QUARESMA DE 2012

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!

O Quarto Domingo da Quaresma – Laetare – Domingo da Alegria, antecipa os deleites da celebração que a Quaresma nos convida a preparar: A festa da Páscoa do Senhor! Este domingo nos lembra que o rico tempo da Quaresma é uma grande proposta de renovação a partir da conversão e de nossa profissão de fé no Cristo vivo e ressuscitado no meio de nós! Eis a razão de nossa vida cristã, a motivação de nossa esperança num mundo mais alegre, fraterno, solidário e digno!
“É necessário, contudo, fazer uma opção clara e decidida por Jesus. Iluminados por ele e sustentados por seu espírito, esta opção nos torna capazes de cativar os que andam nas trevas e de desmascarar os projetos que nos mantém nas sombras da noite da injustiça e da pobreza.
Do livro das Crônicas concluímos: a história de amor entre Deus e o homem nunca termina como uma condenação. Tal como aconteceu com os israelitas, o homem que se afasta de Deus mete-se em complicações e desajustes e torna-se escravo dos ídolos. Deus, porém, nunca o abandona. Não há situações desastrosas nem forças resistentes que possam impedir o poder de seu amor misericordioso. Contudo, é grande a responsabilidade do homem que, ao negar-se a seguir o caminho de Deus, se condena e se destrói. Entretanto, nunca será o mal que prevalecerá, mas o amor de Deus.
Do evangelho de hoje colhemos um ensinamento: alcança a salvação quem tem a coragem de doar a sua vida, como fez Jesus. Aquele que não aceita doar a vida e escolhe o egoísmo, os prazeres e as satisfações, condena-se à morte e, portanto, destrói a própria vida.
A palavra de Jesus é dirigida a Nicodemos, um fariseu que veio procurá-lo numa noite, quase em segredo. Para os fariseus, que representam o grupo judeu mais importante da época, a justiça de Deus é clara. Deus torna justo e santo aquele que obedece à lei. O homem que aceita o ensinamento sobre a inteligência da lei tem, portanto, mais chance de se justificar. [...] Geralmente temos o hábito de mais justificar do que reconhecer nossos limites e, pior: procurar um culpado fora de nós, ao invés de reconhecê-lo nos porões de nossa própria consciência. Feio mesmo, é tentar esconder nossos pecados atrás dos defeitos dos outros. Os que se consideram prepotentemente mais espertos, ‘se demonstram fortes diante dos fracos, embora sejam fracos diante dos fortes...”. Sempre penso que misericórdia + justiça são = ao AMOR! [...].
Jesus que freqüenta os pecadores, dá uma última oportunidade ao desonesto (Zaqueu), ao impuro (a mulher adúltera) ou mesmo ao bandido (o ladrão). Aqueles que não teriam tido nenhuma ocasião de conversão encontram Jesus. Eles crêem. Eles têm fé na ternura de Deus. Experimentaram toda a reprovação de seu meio social. Ouviram a palavra espontânea que condena sem apelação. E depois... Jesus veio. Já não esperavam nada da mediocridade humana. De repente, a fé em Jesus transformou a vida deles. [...] Eis a grande notícia do Domingo da Alegria!
Na carta aos Efésios, aparece claramente que não é o homem a causa de sua salvação. O ser humano não se salva por seus méritos e obras. As boas obras são uma resposta ao amor e à ação de Deus. São sinais que indicam que a graça de Deus conseguiu penetrar e produzir frutos no coração do homem e da comunidade. Nós nada fazemos para merecer a salvação. As nossas ações maldosas nos trazem a condenação. Deus, porém, nos ama e salva gratuitamente” (cf. Roteiros Homiléticos da CNBB n. 20, pp. 48-55).

A Palavra de Deus deste Domingo Laetare, que nos aproxima das alegrias pascais, é um profundo convite de conversão, resgatando as principais características da criança, que geralmente perdemos quando nos tornamos adultos:

Desejando-lhes abençoada Semana da Alegria, com ternura e gratidão, meu abraço amigo,
Pe. Gilberto Kasper
(Ler 2 Cr 36,14-16.19-23; Sl 136(137); Ef 2,4-10 e Jo 3,14-21)

A PÁSCOA ME TRAZ MAIS PERTO DE TI, MEU DEUS !

A PÁSCOA ME TRAZ MAIS PERTO DE TI, MEU DEUS !

A Páscoa me faz ser ponte,
porque aproxima as pessoas
mais perto de ti, meu Deus!

A Páscoa remete meu olhar
a um novo horizonte de uma
nova luz e descreve-me
mais perto de ti, meu Deus!


A Páscoa silencia as inseguranças
florindo minhas esperanças,
conduzindo-memais perto de ti,
meu Deus!

A Páscoa supera a dor de minhas
decepções, transformando-as
em soluções porque me deixa
mais perto de ti, meu Deus!

A Páscoa eleva o olhar dos porões de
minha intimidade, convidando-me para
o alto: mais perto de ti, meus Deus!

A Páscoa me conduz do deserto das ilusões
à luz das emoções, por estar mais perto
de ti, meu Deus!

A Páscoa desabrocha meu
coração machucado pelo pecado,
e o faz florescer, mais perto
de ti, meu Deus!

A Páscoa reveste minha
fraqueza de novo ânimo, porque
me deixa em teu colo: mais perto
de ti, meu Deus!

A Páscoa é o beijo de ternura,
que só experimento,
mais perto de ti, meu Deus!

Pe .Gilberto Kasper

ESTE MOÇO SÓ PODE SER UM SANTO



Pe. Gilberto Kasper
pe.kasper@gmail.com


Mestre em Teologia Moral, Especialista em Bioética, Ética e Cidadania, Professor Universitário, Assistente Eclesiástico do Centro do Professorado Católico, Reitor da Igreja Santo Antônio, Pão dos Pobres da Arquidiocese de Ribeirão Preto e Jornalista.

Uma das visitas a enfermos que, ao longo de meus 22 anos de ministério ordenado, mais me marcou, foi a uma pessoa acamada há cinqüenta e sete anos. Não sabia de sua condição física. Ao entrar no quarto onde o enfermo se encontrava, olhando-o bem nos olhos e vendo um semblante sereno e sorriso nos lábios, pensei: Este moço só pode ser um santo! Nem bem havia terminado meu pensamento, quando a irmã que o cuida disse em voz alta atrás de mim: “Padre, este é meu irmão, que eu cuido há cinqüenta e sete anos nesta cama. Ele é um santo!”.
A alegria do moço, estampada em seu rosto, sua gratidão pela visita do sacerdote, edificou ainda mais meu ministério. Confirmou o que sempre soube e busquei viver por onde passei. Dar especial atenção e dispensar carinho sem medidas aos enfermos, que fazem de seus leitos de dor e de seus limites físicos, o verdadeiro altar do sacrifício do Senhor!
A Campanha da Fraternidade deste ano trata da Saúde Pública sim, mas também é um profundo convite aos ministros ordenados a darem preferência à visita aos doentes, levando-lhes os Sacramentos da Reconciliação e da Unção dos Enfermos, que só eles podem dispensar. Nosso Arcebispo Metropolitano, Dom Joviano de Lima Júnior, sss certo dia escreveu-me que “A visita aos enfermos edifica a vida do Presbítero!”. Sempre procurei incentivar a Pastoral dos Enfermos das Comunidades por onde trabalhei, e os Agentes da Pastoral da Saúde são uma das grandes riquezas de nossa Igreja. Eles abrem o caminho, preparando os enfermos e suas famílias, para a sempre tão esperada “Visita do Padre”. Mas levam o Viático (Jesus em viagem) semanalmente àqueles que são um dos mais eficazes remédios para a santificação da Comunidade, a começar do próprio Padre.
Depois da visita ao Moço que me pareceu santo, porque agradecido a Deus pelo dom vida, mesmo que inerte por cinqüenta e sete anos numa cama, passei a sentir profunda vergonha pelas vezes em que reclamei da vida. Procurei, a partir de então, a exemplo do Moço a agradecer todos os dias o dom gratuito da saúde! Que esta Campanha da Fraternidade nos ajude a sermos sempre agradecidos pela Saúde e a zelar por ela cada dia mais. “Que a saúde se difunda sobre a terra!” (cf. Eclo 38,3).

sexta-feira, 9 de março de 2012

HOMILIA PARA O TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA DE 2012

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!

A Palavra de Deus do Terceiro Domingo da Quaresma nos ajudará a revermos a pureza de nossa relação com Deus. A relação pessoal e a relação com Deus, seja através das leis que administram a vivência de nossa fé, seja através da fé transformada em obras, logo, nossa relação com Deus por intermédio dos irmãos, seja à luz da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, cuja Páscoa preparamos!
A página do Livro do Êxodo nos apresenta o Decálogo, a Lei Mosaica, os Mandamentos como bússola orientadora de caminharmos em direção ao nosso fim último que nada mais é do que a felicidade eterna! A lei torna-se necessária na medida em que a ética se distancia do comportamento humano. O Decálogo é resumido, por Jesus, num único mandamento: o do Amor! Jesus não subestima os Dez Mandamentos, mas os enriquece. Quem ama a Deus e ao próximo como a si mesmo, acolhe o Decálogo com muita simplicidade, sem escrúpulos, descomplicadamente. Para muitos, os Dez Mandamentos são ainda um “peso”, ou então compreendidos como meras proibições ou castigo. Já para quem desenvolve sua capacidade de amar um amor com sabor divino, os Mandamentos são um modo de administrar bem o dom precioso da vida.
Jesus vai além dos Mandamentos e se irrita quando a lei é colocada acima do amor. Pior fica, quando se utilizam do Templo, da Religião, de iniciativas Pastorais que sacrificam as pessoas, favorecendo lucros indecentes. Não penso que o chicote utilizado por Jesus, tivesse os vendilhões como alvo, mas a estrutura da instituição religiosa de seu tempo, que se utilizava do Templo e do Culto para angariar riquezas. Há uma grande diferença entre manter o Templo, zelar por ele, conservá-lo e ampliá-lo, do que faziam as autoridades religiosas de Jerusalém. O não cumprimento dos preceitos implicava na exclusão do povo simples. Todos esmeravam-se por cumprir o que estava prescrito. O povo viajava meses para a celebração da páscoa judaica, e naturalmente necessitava de “suporte” em torno do Templo para ali adorar a Javé. A exploração do simplesmente necessário foi que irritou a Jesus e o fez expulsar os vendilhões do Templo. Impor sacrifícios descabidos sobre os ombros do povo, exigir o cumprimento de leis simplesmente, não agrada o coração de Deus. Jesus tenta demonstrar que o amor supera e deve estar sempre acima da lei!
“Toda celebração da Eucaristia é um divisor de águas. Nela vivemos a tensão entre o culto perfeito e o culto baseado nos interesses pessoais e mesquinhos. O evangelho fala da substituição do templo antigo pelo novo. Nós já somos o novo templo, contudo, a cada momento, precisamos ser purificados de tudo aquilo que não nos deixa oferecer sacrifícios agradáveis ao Senhor. Daí a importância da escuta da Palavra de Deus, da avaliação das nossas práticas, do afinar-se com os desígnios do Senhor e do entrar no espírito do culto em espírito e verdade. A liturgia transpira do começo ao fim, o sentido e a espiritualidade do culto prestado por Cristo ao Pai.
Importa nos deixarmos impregnar por esta liturgia e fazer da vida um culto perfeito. Na celebração, bebemos na fonte que é a misericórdia de Deus Pai. Nele aprendemos a confessar as nossas faltas. Na liturgia importa cantar tudo o que o Senhor fez por nós, antes e depois de ter proposto o código da aliança. A oração eucarística canta exatamente isso, tendo como centro o memorial da páscoa de Cristo.
Na fé, a cruz parece satisfazer e superar as expectativas humanas. Enviar seu filho para sofrer a morte por amor desafia todo pensamento humano. Nesta Quaresma, devemos ser mais solidários entre nós e, certamente, fazer uma loucura como a da cruz, um gesto insensato em benefício da justiça para com os pobres.
Estamos em plena Campanha da Fraternidade. Tantas realidades ligadas ao seu tema poderíamos trazer presentes... Poderíamos lembrar a dependência química do álcool que profana o templo que é o nosso corpo. Diz o Texto Base:
‘A dependência do álcool é um dos graves problemas de saúde pública brasileiro. Hoje, 18% da população adulta consomem álcool em excesso. O uso do álcool, além de causar sérios e irreversíveis danos a vários órgãos do corpo, está também relacionado a cerca de 60% dos acidentes de trânsito e a 70% das mortes violentas. Segundo o Documento de Aparecida, o problema da droga é como mancha de óleo que invade tudo. Não reconhece fronteiras, nem geográficas, nem humanas. Ataca igualmente países ricos e pobres, crianças, jovens, adultos e idosos, homens e mulheres. A Igreja não pode permanecer indiferente diante desse flagelo que está destruindo a humanidade, especialmente as novas gerações’.
Celebrar a Eucaristia, memória da páscoa de Cristo, significa entrar de corpo e alma na liturgia que ele oferece eternamente ao Pai. Significa tornar-se discípulo missionário e adorador perfeito e privilegiado” (cf. Roteiros Homiléticos da Quaresma de 2012 da CNBB, n. 20, pp. 41-47).


São Paulo, em sua Primeira Carta aos Coríntios lembra e atualiza essa questão também a nós, de que não devemos correr atrás do espetaculoso, mas procurar encontra o espetacular na própria cruz de Cristo. É dele que emana todo o sentido de nossa fé e a esperança de nossa salvação. Cristo não espera “coisas” de nós, Ele não precisa delas; mas espera que nos amemos, seguindo o Seu exemplo. Saibamos ser misericordiosos uns para com os outros. Mas também solidários e comprometidos com a promoção da dignidade humana.
Oxalá consigamos passar a Quaresma esforçando-nos por não falar nada mal de ninguém, bem como reservar os frutos de nossos exercícios quaresmais de penitência, como o jejum, a abstinência e outros, para o grande dia da Coleta da Solidariedade, no Domingo de Ramos!

Desejando-lhes abençoada semana, com ternura e gratidão, o abraço sempre fiel e amigo,
Pe. Gilberto Kasper
(Ler Ex 20,1-17; Sl 18(19); 1 Cor 1,22-25 e Jo 2,13-25)

HOMILIA PARA O SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA DE 2012

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!


A Palavra de Deus do Segundo Domingo da Quaresma nos permite uma espiadinha no céu, através do evento da Transfiguração do Senhor diante de três discípulos: Pedro, Tiago e João na Montanha Sagrada.
A página do Livro de Gênesis nos leva a pensar que, de quando em vez, Deus brinca conosco. Não é possível à nossa razão, um Deus de Amor pedir a Abraão, que sacrifique seu próprio filho. Mas não é brincadeira de Deus, e sim uma pedagógica provação da maturidade da fé. Será que somos realmente fiéis à Aliança que Deus selou conosco? É lógico que Ele não quer sacrifícios, muito menos de vidas, mas fidelidade. O holocausto Ele já tem preparado; é Seu Filho Amado. Por isso, o episódio narrado em Gênesis de hoje, remete-nos à Paixão e Morte de Jesus na cruz.


As provações que a vida nos impõe, ou amadurecem nossa fé em Deus, ou nos revoltam e afastam d’Ele. Sempre dependerá de nossa eleição pessoal.
“Ao nosso redor, tantas coisas mexem com o coração e desafiam a nossa fé. Tantas pessoas que se afastaram das nossas comunidades. Milhões de crianças que moram nas ruas, na mais triste pobreza. Tantos jovens entregues às drogas. É incontável a fila de irmãos e irmãs que passam fome e não tem casa para morar. Entre os poderosos e donos do dinheiro imperam o egoísmo, a concentração de poder, os privilégios. São milhões os sobrantes e excluídos da mesa da vida, no dizer dos Bispos em Aparecida.
No contexto da Campanha da Fraternidade de 2012, como não nos lembrarmos das doenças pela dependência química. ‘O Brasil é o segundo maior mercado de cocaína das Américas, com cerca de 870 mil usuários adultos (...) 2,6% da população (dados de 2005) consomem maconha e haxixe. Segundo o Ministério da Saúde, o crack poderá tirar a vida de, pelo menos, 25 mil jovens por no ano no Brasil. A média de idade do início do uso é de 13 anos. Ultimamente, há notícias que indicam a rápida difusão de uma nova devastadora droga, o oxi, uma droga mais barata e de consequências ainda mais danosas para os usuários que o temível crack’ (cf. Texto Base da CF 2012, nn. 87-89).
O que essa situação tem a ver com a nossa preparação para a festa da Páscoa e com o evangelho da Transfiguração de Jesus.
Como a narrativa da Transfiguração está no centro do Evangelho de Marcos, o evangelista quer responder a uma pergunta bem concreta: Quem é Jesus? O povo vai descobrindo que ele é o Messias. Mas não um Messias milagreiro, rei glorioso, vencedor, rico, poderoso, capaz de mudar rapidamente a condição da humanidade e fazer acontecer num rito mágico a presença do Reino. Pedro, na montanha, tem essa idéia e acredita que o reino, simbolizado nas três tendas, pode acontecer sem a doação, sem os sacrifícios, sem a morte e a entrega da vida.
Hoje, nas filosofias do mundo, somos contaminados por falsas expectativas como as presentes na conversa de Pedro na montanha. Ter fé significa entrar nos desígnios de Deus que frutifica na solidariedade com os irmãos. A doação na força da páscoa de Jesus nos transfigura por dentro e por fora. Transforma a situação e a realidade dos abandonados e dos privados do necessário para viver e cantar a vida: saúde, pão, terra, casa, salário digno, respeito e amor pela vida...
A fome do irmão, as crianças abandonadas nas ruas, as violências ao ser humano são chamadas de Jesus para subirmos com ele a um monte alto e entrarmos nos desígnios de Deus Pai, depois descermos da montanha e fazermos a nossa parte. Páscoa é isso: passagem de situações de menos vida para situações de mais vida, de situações de pobreza e miséria para uma vida digna, bonita, feliz e realizada para todos.


Na leitura da carta aos Romanos, aprendemos que o amor de Deus Pai é imenso, gratuito, generoso, infinito e que não pode ser destruído por nenhuma quebra da aliança ou infidelidade por parte do ser humano (cf. Roteiros Homiléticos da Quaresma da CNBB n. 20, pp. 32-40).
Acolhamos o convite deste Segundo Domingo da Quaresma, deixando-nos transfigurar com Jesus e, também transfigurarmos a vida desfigurada de nossos irmãos cuja dignidade lhes foi tirada por conta do consumismo, do hedonismo e do egoísta individualismo.
Debrucemos nossa esperança sobre a possibilidade de dias melhores. Uma das mais edificantes visitas que fiz, nos meus 22 anos de ministério ordenado, foi há algum tempo: entrando no quarto de um irmão enfermo pensei: Este moço é um santo!... A santidade dele se fazia sentir naquele quarto. Nem bem terminara de pensar, a irmã que cuida dele, disse em voz alta: “Padre, este meu irmão é um santo. E tem mais: ele me ensina a santidade... faz 57 anos que ele se encontra acamado e sempre sorridente e agradecido a Deus. Nunca meu irmão reclamou de nada...” Diante daquela realidade, do semblante sereno e agradecido do moço, senti muita vergonha pelas vezes em que reclamei da vida. Isso não significa que devamos ficar passivos à precária Saúde Pública, que não raras vezes trata das pessoas como se fossem bichinhos. Todos somos conclamados a promover a dignidade e “Que a saúde se difunda sobre a terra” (cf. Eclo 38,8).

Desejando-lhes muitas bênçãos e saúde, com ternura e gratidão o abraço amigo,
Pe. Gilberto kasper
(Ler Gn 22,1-2.9-13.15-18; Sl 115(116B); Rm 8,31-34 e Mc 9,2-10)

HOMILIA PARA O PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA DE 2012

Meus queridos Amigos e Irmãos na Fé!

A forte insistência da Palavra de Deus proclamada no Primeiro Domingo da Quaresma é a conversão: mergulhados nos porões de nossa intimidade, reconhecermos o que não está bem e querermos mudar... Devemos sempre querer ser melhores hoje do que ontem. Ser melhores, significa ser mais humildes, bondosos, amorosos e ternos uns com os outros.
A página do Livro de Gênesis apresenta este Deus “louco de amor” pela humanidade, insistindo em selar Aliança! Aliança implica em fidelidade! Quando o ser humano deixa Deus falando sozinho, virando-lhe as costas, este mesmo Deus tão misericordioso, teima em retomar a amizade com sua criatura predileta: a PESSOA!
O dilúvio lembrado neste texto, remete-nos ao nosso Batismo, no qual somos lavados de todas nossas misérias e definitivamente adotados como filhos e herdeiros de Deus. Já o arco-íris lembra a ponte que Deus constrói entre o céu (a eternidade) e a terra (a humanidade), selando Sua aliança que nos permite tomar parte em Sua divindade, enquanto Ele se submete à nossa humanidade!
O Evangelho de São Marcos é um convite ao deserto. Deserto implica em silêncio, interiorização. Olharmos para dentro de nós. Quanto mais olharmos para dentro de nós mesmos, menos encontraremos defeitos nos outros. Assim, nosso exercício de não falarmos mal de ninguém durante a Quaresma, torna-se mais deleitoso. Mas em nossa intimidade, seguramente encontraremos algum mofo, bolor, entulho, pó e mal cheio a serem purificados na riqueza que o Tempo Quaresmal nos propõe: a conversão! Porém, não basta mudarmos o errado e pronto. É preciso também, crer no Evangelho. E o Evangelho tem suas exigências, quando colocado em prática na relação hodierna com os outros. Ele nos propõe um novo projeto de vida, pautado em valores essenciais, como o amor gratuito, a verdade, a justiça, a liberdade e a paz!
Imagino o quanto Deus gosta de ser reconhecido no rosto dos irmãos, especialmente os enfermos, sofredores e surrados pelas injustiças de nosso mundo. De que adianta passarmos a mão no ostensório, se o Cristo Sacramentado não nos remete ao sacrário humano, tantas vezes desrespeitado em seus direitos básicos, como a Saúde Pública, por exemplo. Enquanto não nos esforçarmos por maior dignidade humana, estaremos falando com o Senhor, como se fala em telefone desconectado.
São Pedro, em sua Primeira Carta, também lembra o dilúvio e nos propõe a alegoria da arca: “À arca corresponde o batismo, que hoje é a vossa salvação. Pois o batismo não serve para limpar o corpo da imundície, mas é um pedido a Deus para obter uma boa consciência, em virtude da ressurreição de Jesus Cristo”. No dia de nosso Batismo, recebemos como dom precioso de Deus, a fé, que nos possibilita a fidelidade diante da Aliança de Amor de Deus para com seus amados filhinhos, nascidos do “útero da Igreja, a Pia Batismal!”.

Que o início da Quaresma nos ajude a sermos Anjos Bons uns para os outros. Desejando-lhes muitas bênçãos, com ternura e gratidão, meu abraço amigo,
Pe. Gilberto Kasper
(Ler Gn 9,8-15; Sl 24(25); 1 Pd 3,18-22 e Mc 1,12-15)